III – A LUMEN GENTIUM E OS OUTROS DOCUMENTOS CONCILIARES
Há quatro grandes constituições publicadas pelo Concílio Vaticano II: duas, sobre a Igreja: Lumen Gentium e Gaudium et Spes, e duas sobre as mesas com as quais o cristão se alimenta na fé: Sacrosanctum Concilium e Dei Verbum.
A Constituição Sacrosanctum Concilium
sobre a sagrada liturgia foi o primeiro documento do Concílio. Nos anos
anteriores já havia, em diversos mosteiros e escolas teológicas, muita
reflexão e experiências práticas que ajudaram a apressar a elaboração
desse documento, que promoveu a reforma litúrgica da Igreja, mediante a
centralidade no mistério pascal, maior sobriedade e simplicidade,
participação da assembléia dos fiéis, celebração na língua do povo, uso
de símbolos próprios da cultura popular. A Constituição Dogmática Dei Verbum
sobre a revelação divina foi muito debatida, passou por diversas
elaborações até constituir-se no documento final, que pôs a Palavra de
Deus em lugar de destaque na liturgia e na vida do povo, trouxe a Bíblia
para a mão dos fiéis, favoreceu o estudo da Palavra de Deus nas escolas
teológicas, seminários, movimentos e pastorais e abriu pistas para a
posterior criação de círculos bíblicos e grupos bíblicos em família.
Assim, o Concílio Vaticano II incentivou que os fiéis se alimentem
abundantemente das mesas da Palavra e da Liturgia.
As duas constituições sobre a Igreja
respondem às perguntas sobre a identidade e a relevância da Igreja:
“Igreja, quem és tu? O que tens a dizer de ti mesma?” E: “Igreja, qual a
tua importância para o mundo? O que tens a dizer ao mundo?”.
A primeira pergunta – O que tens a dizer de ti mesma? –, sobre a identidade ou essência ou ser da Igreja, é respondida pela Constituição Dogmática Lumen Gentium
sobre a Igreja. Temos aí a primeira grande reflexão teológica, em 2000
anos de história, que a Igreja faz sobre si mesma. É a Igreja que se
volta para dentro, num movimento de sístole, em busca de
autocompreensão. Além dos amplos conceitos de mistério e de povo de
Deus, ela se autodefine como sacramento universal de salvação, corpo
místico de Cristo, templo do Espírito Santo, sinal, germe e instrumento
do Reino de Deus. É a partir dessas noções conciliares que, mais tarde,
nas exortações apostólicas pós-sinodais de João Paulo II, vai se cunhar a
tríplice expressão sobre a Igreja: mistério, comunhão e missão.
A segunda pergunta – O que tens a dizer ao mundo? –, sobre a relevância ou importância da Igreja, é respondida pela Constituição Pastoral Gaudium et Spes
sobre a Igreja no mundo de hoje. Temos aí uma portentosa reflexão
doutrinal-pastoral sobre o lugar da Igreja no mundo. É a Igreja que se
volta para fora, num movimento de diástole, para compreender-se não mais
como Igreja separada ou oposta ou superior ao mundo, mas, conforme a
parábola evangélica do fermento na massa, como Igreja inserida nos
caminhos da história. Seguindo a metodologia “ver-julgar-agir”, criada
pela Ação Católica, faz-se inicialmente uma análise das grandes mudanças
sociais, psicológicas, morais e religiosas e sobre as aspirações e
interrogações da humanidade; apresenta-se, em seguida, a verdade cristã
sobre o ser humano, sua dignidade, sua índole comunitária, o valor de
sua atividade e a função da Igreja no mundo; e propõe-se, por fim,
linhas de ação nos campos do matrimônio e da família, do progresso
cultural, da vida econômico-social, da comunidade política, da promoção
da paz e da comunidade internacional.
É ao redor desses dois grandes documentos sobre a Igreja, sobretudo ao redor de Lumen Gentium,
verdadeiro eixo teológico-pastoral, que se desenrolam os outros
documentos do Concílio. Há os que tratam das categorias de fiéis
(bispos, presbíteros, religiosos, leigos e seminaristas) no interior da
Igreja: o Decreto Christus Dominus sobre o múnus pastoral dos bispos, o Decreto Presbyterorum Ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros; Decreto Perfectae Caritatis sobre a atualização dos religiosos, o Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o apostolado dos leigos e o Decreto Optatam Totius sobre a formação sacerdotal. Há os que tratam de situações relacionadas à nova configuração da Igreja como comunhão: o Decreto Orientalium Ecclesiarum sobre as Igrejas orientais católicas e o Decreto Unitatis Redintegratio sobre o ecumenismo. Há os que tratam da missão da Igreja: o Decreto Ad Gentes sobre a atividade missionária da Igreja, o Decreto Inter Mirifica sobre os meios de comunicação social e a Declaração Gravissimum Educacionis
sobre a educação cristã. Há, por fim, dois importantíssimos documentos
que mudarão para sempre o modo de a Igreja posicionar-se no mundo: a
Declaração Nostra Aetate sobre as relações com as religiões não-cristãs e a Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa.
Nessas quatro constituições, nove
decretos e três declarações, o Concílio Vaticano II formulou um novo
modo de a Igreja ser e agir. Um novo Pentecostes, que preparou a Igreja
para o advento do novo milênio!
Pe. Vitor Galdino Feller
vhttp://anodafe.wordpress.com/2012/07/31/lumen-gentium-iii-a-lumen-gentium-e-os-outros-documentos-conciliares/
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